Como cérebros aprendem?
Como diria a filósofa contemporânea Taylor Swift, “long story short…”: eu não sabia estudar, até entender como meu cérebro funciona.
Há muito tempo, venho pensando em escrever sobre meu processo de aprendizado, inspirada em vozes como Justin Sung e nos meus próprios estudos em relação aos processos psicológicos e minha caminhada rumo ao estudo acadêmico.
Sendo sincera, acredito que meu maior obstáculo para começar é minha insegurança intelectual. Ela me acompanha desde que eu era apenas uma adolescente neurodivergente não diagnosticada em um ambiente completamente insalubre e despreparado: a escola. O questionamento era constante: “eu não sei de nada, como irei passar algo para alguém?”.
Porém, muitas coisas aconteceram nesse semestre : comecei um projeto de extensão na universidade para disseminar conhecimento, a ministrar mentorias particulares e me envolvi em uma leitura que juntou esses fatores. Citando minhas aulas de psicanálise, eu tinha uma energia latente: ajudar aqueles que, como eu, QUEREM APRENDER mas se sentiam inseguros demais para começar.
O livro que me fez finalmente começar foi “Hábitos Atômicos” de James Clear. Já que estamos em um ambiente seguro e sem julgamentos (CERTO? CERTO!), devo confessar que eu sempre encontro uma resistência quase narcísica em leituras de autoajuda. Mas o livro estava ali, meu café também, então eu dei os ombros e pensei “por que não?”.
Não é que foi bom mesmo?! Aqui estou eu, criando um novo hábito..
Enfim, vambora falar de estudos.
Falando de anatomia
Quando entrei na faculdade , fiz um compromisso comigo mesma: estudar não para passar nas provas, mas para realmente aprender o que iria me ser ofertado nas disciplinas. Meu objetivo sempre foi entrar para a pesquisa. Por isso, eu iria usar todo e qualquer tempo disponível para entender de verdade o que estava lendo.
Para isso, eu precisava primeiro entender COMO o meu cérebro aprende.
Vindo de outras graduações, eu já tinha entendido que só fazer um monte de “métodos” de estudo não era exatamente proveitoso. Eu acabava esquecendo 99,9% (FONTE: censo nininha de métrica pessoal) das coisas que estudava assim que o semestre acabava. E esse não era meu objetivo na Psicologia, na verdade eu queria quebrar esse ciclo, queria aprender para aplicar os conhecimentos na pós-graduação, sem ter que perder mais tempo – ou pior: GASTAR MAIS DINHEIRO em cursos – para rever algo que me foi apresentado na faculdade.
Então, meu primeiro passo foi entender como nosso querido amigo cérebro aprende coisas:
Antes de falar propriamente sobre os processos que levam ao aprendizado, acho importante explicar um pouco o funcionamento fisiológico do nosso cérebro. Tentarei ser o mais didática possível. Acredito que essa parte irá satisfazer àqueles que, assim como eu (que adoram complicar a própria vida), gostam de saber como as coisas realmente funcionam:
Dentro do nosso cerebrinho — e do sistema nervoso como um todo — existem elementos que fazem parte do seu “core”, a essência física dele. Tendo isso em mente, eu lhes apresento a unidade básica de todo nosso Sistema Nervoso: O Neurônio.
Quando estava tendo neuroanatomia, eu gostava de pensar que nosso sistema nervoso é uma grande máquina digna do movimento Steampunk, cheia de correntes, vapor e engrenagens. O Neurônio, nessa minha analogia maluca, era um elo da corrente que mantinha a máquina funcionando.
Nosso aparelho nervoso é composto por milhares de ligações neurais. É por essas ligações entre os neurônios que toda a informação contida na nossa memória vai saltando, se juntando, se rompendo e se recriando. Esses dois últimos processos (rompimento e recriação) são conhecidos como “neuroplasticidade”: a capacidade do cérebro de se alterar conforme o ganho ou a perda de aprendizado.
Simplificando de maneira gritante (e quase dolorosa para quem é especialista de verdade no assunto): a gente aprende coisas conforme as ligações entre nossos neurônios ficam mais fortes e conforme a rede neural se expande.
Lendo o livro “Convite à Filosofia” da maravilhosa Marilena Chauí, achei um esquema que explica maravilhosamente bem como esse sistema neural funciona. Basicamente, existem 3 “partes” da informação que compõem nossos pensamentos:
O Conceito
São uma representação mental que nosso cérebro desenvolve para definir, dentro dele mesmo, o que são as coisas.
Exemplo: “cachorro” é o conceito que define um mamífero, quadrúpede, peludo, domesticado, que late. Não estamos especificando raça ou cor.
De acordo com Eysenck e Keane, em “Manual de Psicologia Cognitiva”, os conceitos são nossos blocos de lego mentais que nos ajudam a compreender e manipular as informações.
O Juízo
São, de acordo com Chauí, as ligações entre os nossos conceitos.
A Teoria
Voltando ao exemplo dos cachorros (conceito), podemos agrupá-lo — por meio do juízo “quadrúpedes” — com outros conceitos como “gato”, “rato” e “porco” para criar a Teoria de que alguns mamíferos são quadrúpedes.
Mas acho que será mais fácil de visualizar se eu desenhar:
Antes de continuar com essa linha de raciocínio técnico-científico freestyle, acho interessante explicar o por que eu precisava entender como poderia aprender…
Lá, há muito tempo atrás, na época do cursinho, o movimento do “Studygram” e do “Studyblr” estava em alta. Um milhão de vídeos sobre “o melhor método de estudo” e “aprender X vezes mais rápido” pipocavam diariamente. Era tanta foto de Bullet Journal, Planner, resumos esteticamente organizados e coisas do tipo que eu, honestamente, me sentia sobrecarregada.
Porém…
Quando eu me sentava para estudar, eu não tinha a folha de fichário específica da moça do Instagram, nem o marca-texto em tons pastéis que a youtuber usava para fazer lettering. Eu não tinha a letra bastão redondinha, e não conseguia fazer aqueles resumos lindos.
Na realidade, parando para refletir melhor enquanto escrevo esse artigo, noto que todo o problema que enfrentei com a minha intelectualidade vem desde a infância (NÃO, A GENTE NÃO VAI CITAR FREUD AINDA). Eu nunca nem tinha sido ensinada COMO estudar.
Na minha casa, pelo menos — criança nos anos 2000 — a hora da lição de casa era apenas um estresse generalizado porque eu não conseguia conjugar o verbo no pretérito-mais-que-perfeito corretamente, nem decorar a tabuada do 7. O chinelo ficava na mesa, e a cada erro era tapa, puxão de cabelo e o grito. Quando fiquei adolescente, ligado aos meus problemas sociais — autismo não-diagnosticado —, comecei a enfrentar sérios problemas de aprendizado que resultaram em inúmeros castigos, físicos e psicológicos. Meu cérebro em desenvolvimento aprendeu que: notas, provas, estudo e tudo que fosse ligado ao APRENDER era ruim; algo a ser temido e evitado.
O erro deveria ser temido e evitado.
Se eu não fosse perfeita de primeira, adeus. Significava que eu não era boa o suficiente – nem para receber amor.
Não preciso nem comentar o tipo de condições posteriores desastrosas que isso gerou, mas eu posso garantir que toda essa pressão e esse “trauma” são remediáveis a partir do momento em que a gente entender que o “Não Saber” não é uma limitação, e sim uma porta aberta para o “Saber”.
Mas calma, como a gente chegou na sessão de terapia?! a gente tava falando de anatomia…
A Anatomia do Aprender (O “Método”???)
Quando eu entrei na faculdade de Psicologia, eu fiz um pacto comigo mesma: eu iria APRENDER o que estava sendo entregue. Não importava se a primeira reação que eu tivesse numa aula expositiva fosse “meu Deus, eu não entendi absolutamente nada do que esse professor está falando”.
O objetivo era aprender, porque se eu vou lidar com vidas — seja na clínica ou na academia — eu preciso saber do que eu estou falando.
Então, como eu disse mais cedo, fui tentar entender como o cérebro aprende. Tive a sorte de ter duas disciplinas (ou seria mais apropriado dizer “duas pedradas”?) que me ajudaram muito nesse aspecto: Neuroanatomia, que me ensinou o processo fisiológico do sistema nervoso, e Processos Psicológicos Básicos, que me ensinou a parte mais “subjetiva”.
Essa última, inclusive, eu sigo estudando mais aprofundadamente, porque acredito que um semestre com apenas 01 aula por semana não foi o suficiente. Mas consegui, juntamente com algumas palestras de Sung (mais especificamente no vídeo que irei deixar mencionado ao final) em relação ao aprendizado, montar um esquema que eu gostei de chamar de “anatomia do aprender”:
O Que, afinal, significa aprender?
A palavra “Aprender” tem origem no latim apprehendĕre, que significa “agarrar”, indicando a ideia de tomar posse de algo. Ou seja, aprender é, basicamente, segurar um conhecimento e guardá-lo para si, deixando-o acessível sempre que quisermos ou precisarmos.
Quando estudamos o aprendizado na faculdade, a definição simples que nos apresentam é: o processo de AQUISIÇÃO, RETENÇÃO e RECUPERAÇÃO de informações/estímulos.
Para mim, ter contato com o aprendizado posto dessa maneira fez eu entender que tudo o que eu tinha “aprendido” sobre estudar estava errado. A primeira coisa que eu precisava mudar era descobrir como o MEU cérebro aprende. Não como ele guarda conteúdo para ser vomitado na prova, mas como eu consigo guardar as coisas nele para conseguir utilizá-las depois, afinal, uma das partes do “aprender” é RECUPERAR para APLICAR.
Foi assim que elaborei meu sistema, me baseando na anatomia do aprendizado:
1ª Parte: Receber e Processar Informação Sensorial (AQUISIÇÃO)
Essa é a primeira parte de aprender, o campo de TUDO AQUILO QUE CHEGA PELOS ÓRGÃOS DOS SENTIDOS (olhos, ouvidos, pele/tato...).
Gosto de dizer que essa é a fase em que a gente “come conteúdo”. Tudo o que eu leio, escuto, observo, tomo nota... está alimentando meu cérebro.
Para que a alimentação seja concluída, nosso corpo precisa digerir. No caso do aprendizado, essa digestão chama Processamento de Informações.
A digestão é pegar o conceito novo e juntar com outros que combinam. A gente pega a “pecinha de lego” e bota junto com as outras que já temos, formando uma rede de conceitos (ou Juízos, como Chauí denominou).
Quando essa digestão acontece, criamos uma sinapse. Simplificando (quase beirando o erro neuroanatômico): juntamos dois neurônios (um “novo” com um que já existia) e formamos uma linha de pensamento.
– Clique aqui para ver um vídeo de sinapse sendo formada –
Mas não é só porque fizemos uma conexão que aprendemos algo de verdade. Ainda faltam as duas outras partes: Reter e Recuperar.
2ª Parte: Fortalecimento das Sinapses (RETENÇÃO)
Para reter alguma informação, precisamos “lutar contra” o nosso próprio cérebro!
Estamos constantemente — e inconscientemente — procurando maneiras de guardar energia e ser mais eficientes. Se a gente cria uma sinapse, mas não utiliza ela, ela fica fraca e, na próxima poda, o cérebro simplesmente joga ela fora.
Sim, é uma poda. Nosso cérebro corta neurônios que não estão sendo utilizados para poupar energia. Esse processo de formação e poda é a neuroplasticidade.
É por isso que gosto de pensar que o processo de retenção é exatamente igual a fazer academia.
No começo, doía tanto (física e emocionalmente) que era mais fácil desistir e ir comer um TopSunday. Eu sentia a mesma coisa lendo textos acadêmicos.
Mas, conforme eu não faltava aos treinos, o peso foi ficando mais tolerável.
Conforme eu continuava lendo os textos, parei de precisar pesquisar a tradução de palavras como “empírico” e “epistemológico”. Meu cérebro guardou, porque eu estava usando aquela sinapse diariamente: ela estava ficando forte.
Da mesma forma que treinamos na academia repetindo o mesmo movimento de forma espaçada, nosso cérebro retém as informações à medida que repetimos elas e exercitamos nossa sinapse. O conceito está guardado e eu consigo acessá-lo inconscientemente.
3ª Parte: A Recuperação (APLICAR E ARTICULAR)
Entretanto, só saber e relembrar quando um estímulo é causado não é, necessariamente, absorver o conceito em nível intrínseco. O conhecimento só tem realmente valor quando EU consigo articulá-lo da maneira que eu quero.
A terceira parte é a mais importante: ao nos esforçarmos ativamente para recuperar algo, nosso cérebro desenvolve a habilidade de transformar aquele conceito solto em ferramentas.
No começo é bem difícil, mas com o tempo o cérebro entende que tem o controle sobre qual caminho o raciocínio deve percorrer.
Acredito que nos desacostumamos com o tédio, e por isso perdemos o controle sobre nossas linhas de raciocínio. Mas esse é papo pra um outro artigo!
Gosto de dividir meu momento de Recuperação em duas subpartes: LEMBRAR e APLICAR.
A. LEMBRAR
Eu divido meu estudo para que primeiro eu consiga LEMBRAR o conceito sem precisar consultar nada, porque assim me sinto mais confiante para articulá-lo depois.
A professora expôs o conceito e deixou o livro de referência.
Eu li o capítulo, grifando as partes importantes.
Depois, fiz uma “colinha” para consultar, que precisa ser:
escrita a mão – vou deixar linkado nas referências um artigo da neuroscientista Dr. Audrey van der Meer que comprova, por meio de Eletroencefalograma, que escrever à mão realmente ajuda a memorizar melhor.
pequena e fácil de manusear – uma vez que precisa estar sempre de facil acesso caso eu precise consultar o conceito.
colorida – porque o estímulo visual das cores, juntamente com o estímulo motor de trocar de caneta para escrever, reforça ainda mais a importância do tópico que está sendo trabalhado.
Às vezes, só de ter a colinha por perto já me dava segurança para avançar em textos mais robustos, como teses de doutorado.
B. APLICAR
Na minha opinião, a parte de aplicar é sempre a mais complicada. Tive que dar meus pulos, já que a universidade não tem o costume de passar exercícios de fixação – professores explorados ganhando mal + alunos também sendo trabalhadores explorados que não dispõem de energia mental/física para engajar no conteúdo.
O Método da Mini-Redação: Peguei a ideia no canal do Odysseas, mas uso para aplicar os conceitos e fazer ligação com o que já estudei.
A minha receita é: relacionar algo que eu já domino com o conceito novo.
Exemplo: Como a formação de memória de longo prazo influencia na formação da identidade ?
Formação de identidade = conceito que eu já domino
memória de longo prazo = conceito que quero dominar
Ai, eu vou escrever…
Normalmente, logo nos primeiro minutos de escrita, não sai nada. Então eu pego minhas colinhas, dou uma revisada no que já estudei, vejo quais são os outros conceitos que se relacionam, faço um “rascunho vesgo” no caderno, pesquiso algumas coisas no google, tento relacionar com algum conteúdo de entretenimento que consumi recentemente – música, filme, série, curtas... Depois de um tempo de exercício mental, meu cérebro já ultrapassou o que eu chamo de “barreira do medo” – que é aquele famoso “deu branco” pra coisas que a gente SABE, mas quando vai responder uma pergunta SOME TUDO, sabe? – e então eu consigo escrever alguns parágrafos.
Regras de Ouro:
O processo NÃO pode ser feito no DIA em que eu aprendi o conceito novo, de preferência eu espero 1 ou 2 dias para que a curva de esquecimento já esteja declinando.
TODO PROCESSO de escrita não pode passar de 25 minutos (um pomodoro).
Mesmo que saiam apenas três linhas, eu fecho o caderno/docs e mudo de atividade. Não precisa ser perfeito, apenas feito
Não utilizo Inteligências Artificiais para escrever – afinal, a ideia é exercitar o cérebro e criar conexões, se eu já tiver a resposta pronta feita pela IA, é basicamente a mesma coisa que simplesmente ler e tentar “decorar” o conteúdo de um livro.
Depois de algum tempo estruturando meus estudos para ajudar o meu cérebro a trabalhar, eu percebi — e tive confirmações a partir do livro do James Clear — que não importa o quanto eu me esforçasse. Quanto mais eu ficava presa no pensamento de “isso é difícil demais para mim” e “eu nunca vou conseguir aprender isso”, mais isso se tornava verdade.
Logo, concluí que o processo de aprendizagem estava, também, intrinsecamente ligado à minha visão de “eu/Self”, ou seja, à minha identidade. Contrariando tudo o que eu (e todas as vozes na minha cabeça) acreditava até então — já que lutamos sempre muito fortemente contra os “papos de coach“ —, o mindset é uma parte crucial para o aprendizado de verdade.
Mas vamos deixar esse papo controverso – que a capacidade de aprendizado não está relacionada com “inteligência” e sim com a “identidade” que construímos – para o próximo artigo, tudo bem? Para hoje, vou apenas deixar um exercício prático, com o objetivo de demonstrar que podemos aprender literalmente qualquer coisa.
EXERCÍCIO:
Escreva três coisas que você SEMPRE quis aprender, mas acha que “não tem capacidade para isso”. A partir dessa lista, escolha um dos tópicos e procure: 01 livro; 01 influencer, criador de conteúdo, youtuber; e 01 mídia de entretenimento – podcast, documentário, série,filme… que tenha relação com essa coisa que quer aprender.
Se você for participar do exercício, me avise (pelos comentários ou pelo Instagram @acciarinina)! Eu vou amar acompanhar o seu processo.
Obrigada por ter lido até aqui!
Um beijinho,
nina.
Referências:
SUNG, Justin. Learn to Learn in 46 Minutes
CLEAR, James. Hábitos atômicos: um método fácil e comprovado de criar bons hábitos e se livrar dos maus.
EYSENCK, Michael W.; KEANE, Mark T. Manual de Psicologia Cognitiva.
VICENTE, Andrea Oliveira; ANTUNES, Larissa. Introduzindo o pensamento e a Hierarquia de aquisição de consciência. In Processos Psicológicos II.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia.
VAN DER MEER, Audrey. “Why we remember things better when we write by hand”
Odysseas. How to Write a Mini-Essay





Que artigo incrível!!! ♥️
que artigo bem escrito!